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Capítulo 3: Watashi
wa Sakurai Sho desu! Hajimemashite!
Eu só consegui
falar mesmo com a Mayumi àquela hora, liguei para a Yukari, para a Saori e para
a Karul, mas não consegui falar com elas. Pensei em tentar falar com a Thaís,
mas eu sabia que ela estava muito ocupada nos últimos dias, nas vésperas de
concluir seu mestrado, e tinha poucas horas de sono, então não queria acordá-la
cedo bem no domingo e deixei para ligar no dia seguinte. Eu estava muito
cansada, e sabia que o melhor seria ligar logo para minha mãe, para poder
dormir.
Depois de
afirmar e jurar de pé junto para a senhora Cristiane que eu fizera uma boa
viagem e já estava no apartamento, segura, eu pude enfim tomar uma ducha e
deitar. No dia seguinte, muita coisa ia acontecer, e eu estava muito ansiosa!
Afinal, eu trabalharia com o Sho, um dos cinco homens que eu mais admirava. Ele
era ótimo âncora, tive a oportunidade de ver algumas vezes sua apresentação no
telejornal, e como cantor, dançarino e ator, ele era ótimo também. Mal podia
esperar para que segunda-feira chegasse logo! Então, tratei de fechar logo os
olhos e comecei a contar em voz alta, uma terapia que desenvolvia desde a
infância para dormir mais rápido, e antes mesmo de alcançar o número quinze...
bom, na verdade, eu nem lembro qual foi o número, mas ainda consigo me lembrar
que ainda contei o doze antes de pegar no sono.
Na manhã
seguinte, o despertador tocou às 6h15. Tinha arrumado o relógio do celular e o
de pulso para a hora de Tóquio assim que desliguei o telefone depois da
conversa com a Mayumi.
Abri a geladeira
(tinha uma geladeira!), mas... que droga! Pensei comigo: Eles fizeram tudo... deviam pelo menos ter me avisado né? Que não tinha
comida. Bufei e fechei a porta do frigobar (sim, era uma geladeira pequena
demais, então parecia mais um frigobar de quarto de hotel). Será que tem alguma padaria por aqui?
Decidida a ir a
algum lugar fazer o desjejum, mas sabedora que às 07h45 um táxi iria buscar-me,
resolvi apenas tomar uma ducha gelada para despertar do sono, pois sentia como
se não tivesse dormido nada.
Depois da ducha,
coloquei uma roupa casual, jeans,
sapatilhas azuis e uma camisa manga longa também azul, com um casado de lã bege
por cima, pois o vento estava bem gélido, mas não tão frio quanto na noite
anterior, pelo menos.
Era dia 11 de
março e completavam-se dois anos desde o terremoto seguido de tsunami que
atingiu o Japão em 2011 e do desastre do vazamento nuclear que se seguiu. Enquanto
eu andava, na calçada, via faixas, panfletos, outdoors e ouvia uma notícia aqui e ali transmitida por alguma TV
ou rádio. Ainda no Brasil, ouvi e vi muitos trabalhos desenvolvidos por esse
motivo.
Graças a Deus,
tinha uma padaria não muito grande logo a duas quadras. Cheguei, fiquei meio
segundo olhando para a atendente tentando recordar as palavras corretas em
nihongo, e fiz o pedido. Comprei também uma latinha de café (na verdade, eu
queria um “café para viagem”, mas eles não tinham) e voltei para o apartamento.
Ainda faltavam
quarenta minutos para o táxi chegar. Engoli o pão e o café em lata (que não
gostei muito, mas dava pro gasto), escovei os dentes, arrumei todos os meus
documentos para que eu pudesse me fixar no país, fazendo compras e alugando um
imóvel em meu nome. Depois, sentei no sofá, com a bolsa no ombro, a papelada
dentro da pasta e os pés batendo impacientemente no piso.
Ah,
que nervoso!
Faltavam ainda
quinze minutos e eu não aguentava mais esperar. Ainda não tinha acreditado que
eu ia trabalhar no News Zero! Com o Sakurai Sho! Ainda não parecia verdade.
Tudo bem que no começo eu ia trabalhar como foca, mas o professor dissera
“redigir matérias para os âncoras”. O que significava que eu não fora
contratada para ser apenas um foca por muito tempo. Então eu ia me esforçar e
mostrar o valor do meu trabalho para poder assumir logo minha função. Mas para
quem eu iria redigir, afinal?
Finalmente, ouvi
o interfone tocar. E mais uma vez, para atender corretamente, tive que respirar
fundo por meio segundo. Em menos de cinco minutos, estava no portão lá embaixo.
Era o mesmo motorista da noite passada, que trouxera eu e Rebecca do aeroporto.
- A senhorita é
amiga da senhorita Rebecca? – ele me perguntou quando eu sentei no banco de
trás. – Veio à passeio? Se bem que não, eu acho. Afinal, é bem cedo né? Para
fazer uma excursão ao Jornal.
- Sim, é cedo
para uma excursão. Na verdade, estou indo trabalhar. Não vim passear, vim morar
aqui. Sou jornalista como a Bec... senhorita Rebecca.
- Ah sim! Bom,
desejo sucesso para a senhorita! Se quiser, eu posso vir buscá-la a esse
horário todos os dias, já que não tenho nenhum serviço pré-agendado para antes
das 08h30.
- A Rebecca
disse que o prédio da NTV onde fica a central de jornalismo é fácil de achar, é
perto. Talvez eu vá a pé mesmo todas as manhãs, pois agora não dá pra eu gastar
tanto com táxi, entende? Acabei de chegar do Brasil e ainda nem comecei a
trabalhar ou ter salário.
- Entendo – ele
disse olhando para o trânsito à sua frente – Realmente não é longe, mas a pé dá
uns bons vinte minutos.
O homem se calou
e eu também. Nunca fui muito de ficar puxando conversa com pessoas com quem
ainda não tinha certa intimidade.
O trânsito
estava razoavelmente tranquilo naquela manhã de segunda-feira e chegamos
pontualmente às 08h. O motorista desceu e abriu a porta para mim, que peguei o
dinheiro para pagar a corrida. Rebecca esperava na entrada do prédio.
O prédio era
imenso, devia ter quinze andares ou mais. Eu nunca vira uma fotografia da
central jornalística da Nippon Terebi (NTV) e fiquei espantada com o tamanho.
Os estúdios de transmissão do telejornal deviam estar em um desses andares,
assim como os estúdios de outros telejornais também, e toda a redação e afins.
- Bom dia,
Becca! – eu disse, em português, aproximando-me dela e cumprimentando-a com um
leve beijo na face, à moda brasileira.
- Ohayo, My! –
ela respondeu em japonês, enfaticamente, e sorriu.
- Ah! Haaai! Não
esquecerei mais. – batendo continência e sorrindo também.
Chegando à sala
da chefia de redação, no 11° andar (descobri que o prédio tinha na verdade
dezesseis andares e daquele para cima, pertenciam ao Jornal), um senhor talvez
na faixa dos 60 anos que imaginei ser Isao-san veio em minha direção, com um
meio sorriso nos lábios.
- Bom dia,
senhoritas! Rebecca, esta deve ser nossa nova funcionária, né? Emiri Kommerusu, isso? Irashai, Kommerusu-san! Que você prospere aqui no
Zero! Yoroshiku Onegaishimasu – curvando-se perante mim.
- Yoroshiku –
curvei-me também – Por favor, cuidem de mim!
- Deixo então a
Emily com o senhor, Isao-san – disse Rebecca, confirmando assim minhas suspeitas
– Hoje tenho muito trabalho a fazer!
Rebecca saiu da
sala, e perdeu-se em todo aquele espaço. O lugar era enorme! Ainda estava com
medo do tempo que eu levaria para deixar de me perder ali dentro. Ainda bem que
a sala de redação era quase em frente à saída do elevador, senão eu estava
perdida!
Me senti meio
deslocada, num primeiro momento Isao-san me deixou “de lado”, por assim dizer,
e somente recomendou que eu me sentasse numa cadeira ao canto e esperasse por
ele. Ele saiu, mas logo estava de volta e sorriu novamente para mim.
- Hoje eu vou te
mostrar nossas instalações e dizer que tipo de trabalho vamos querer de você
num primeiro momento. – ele disse.
- Mas... – eu
cocei a cabeça, em dúvida – E os documentos que pediram para eu trazer?
- Infelizmente
para nós, e felizmente para os funcionários lá, a Embaixada permanecerá fechada
hoje, e todas as repartições ligadas a ela. Amanhã vemos isso.
***
O dia passou
rápido e quando dei por mim, já eram 17h30. Primeiro Isao-san me apresentou a todos
da Redação, e então eu fui conhecer as outras repartições do Jornal, inclusive
os dois estúdios de onde era transmitido, ao vivo, o News Zero todas as noites.
Conheci muita gente e descobri que a princípio, eu não seria um foca, como
disse Rebecca, pelo menos não num sentido negativo, mas eu seria como uma
assistente da assistente direta de Isao-san, a Fumiko-san (acho que foi o único
nome que consegui gravar no primeiro dia).
17h30. Ou seja,
a “cúpula” do Zero já estava fechada em reunião dando as diretrizes para a
edição daquela noite. Eu ainda não tinha sido apresentada a essas
personalidades que compunham o corpo de âncoras e repórteres televisivos,
nenhum deles. Nem mesmo sabia se uma simples assistente da assistente como eu
conhecia pessoas como “eles”.
Mas para um
deles em especial eu queria ser apresentada com urgência, e esse era Sakurai
Sho. Eu sabia que ele estava lá, naquela reunião a portas fechadas na sala
conjugada ao estúdio principal. Queria ficar “secando” a porta da sala de
reunião, cercando-a, mas a mim isso era impossível, pois eu ficava no 11° andar
e os estúdios eram no 14°.
De repente,
quando estava tranquilamente sentada à escrivaninha na sala conjugada à sala de
Fumiko-san, Rebecca apareceu.
- Pronto,
pronto, pronto! Está quase na nossa hora, Emily.
- Mas... – ouvir
que já estava na hora de ir embora me desesperançou completamente de conhecer o
Sho ainda naquela semana – Eu achei que a gente tivesse que ficar até a edição
ser concluída.
- Não, hahaha!
Emily, o que você achava? O pessoal que cuida da transmissão, que apresenta o
telejornal e tudo o mais, só chega aqui 15h, e daí sim eles vão embora 1h todos
os dias. Mas nós não precisamos fazer isso. Entramos às 8h, esqueceu?
- Não, mas eu
achei...
- O que você achou,
My?
- Eu só achei
que... – nesse instante eu baixei o tom de voz, não queria que a Fumiko-san
ouvisse – ia conhecer aquele pessoal lá de cima.
- Sei, o pessoal
lá de cima... você quer dizer, o Sakurai, né? – olhando-me de jeito cúmplice. -
Sabia que ele estava aqui?
Eu fiquei toda
encabulada e desviei os olhos.
- Venha comigo.
– me puxando pela mão.
***
Realmente, eu não
esperava que a Becca fizesse algo assim. Nós literalmente, por alguns segundos,
parecemos duas espiãs, pois do jeito que ela me puxou, eu pensei que subiríamos
clandestinas para o 14°. Mas o que ela fez em seguida me surpreendeu mais
ainda. Ela deu dois toques na porta do escritório de Isao-san; ele estava
trancado lá dentro com alguns redatores desde o meio da tarde.
- Entre.
- Shitsurei
shimasu. – pediu Rebecca, parada comigo à porta.
Espantei-me de
ver que na sala só havia o senhor de 60 anos. A reunião acabara e eu nem sequer
tinha notado. Que falha a minha! Precisava ser mais atenciosa dali para frente.
- Rebecca, Komerusu-san, podem entrar! Aconteceu
alguma coisa?
- Não senhor. –
Rebecca respondeu – É que a Emily quer...
Nesse momento,
alguém deu uma leve batida na porta que estava aberta atrás de nós.
- Isao-san, konnichiwa! Shitsurei shimasu.
- Olá Sakurai-san.
Entre, por favor.
- Hai! O
pessoal... – e ele parou de falar, pois eu olhava estática para ele e ele
voltou os olhos curiosos para mim. – Errr... o pessoal já está vindo. –
Prosseguiu, olhando novamente para o chefe.
- As duas já
estão de saída – Isao-san olhou para mim e Rebecca – O que desejam senhoritas?
Tenho uma reunião agora com o Sakurai Sho aqui – indicando com a cabeça – e com
todos de hoje à noite.
- Ano... não é
nada não... – Rebecca já ia se retirando, com um leve curvar de cabeça, e me
puxando pela mão – Não queremos atrapalhar o senhor. Depois falamos, não é nada
grave.
- Tudo bem
então, se é assim... – sorrindo para nós.
Quando já
passávamos pela porta, Rebecca praticamente me arrastando atrás dela, pois eu
ainda estava meio bestificada, Sho de repente virou-se para nós.
- Com licença.
Não me lembro do seu rosto – me indicando com mão – Ela eu sei quem é. Rebecca Passosu, né? Trabalha na
repertição de fotografia, né? E você?
- Eu? – apontei
o dedo indicador em riste para mim mesmo – Me chamo Emily Kommers. Yoroshiku
onegaishimasu. – me curvando - Comecei hoje aqui.
- Você não é
japonesa, né?
- Não, sou
brasileira como a Rebecca – olhando para a moça a meu lado. – cheguei ontem de
viagem.
- Uhm. Deixa eu
me apresentar também. Watashi wa Sakurai Sho desu! Hajimemashite!
- Ano... eu sei
quem você é.
Ele me olhou com
cara de dúvida. Eu ia falar mais, mas os outros apresentadores chegaram nesse
momento. Sho olhou para mim e, com um sorriso, disse antes de fechar a porta
para a reunião:
- Emiri Kommerusu, né? Com certeza me
lembrarei, é um nome incomum para nós aqui. Até mais, Emiri, Rebecca. Assistam hoje à noite o Zero News!