E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Chave de um Coração - Capítulo 37


Carol vestiu uma calça de moletom lilás, tênis branco, uma blusinha manga-longa de gola, também branca, e o casaco que fazia conjunto com a calça. Prendeu o cabelo e o escondeu sob o capuz do casaco.
Chegou à praça em menor tempo que os dez minutos que disse a Jun que demoraria. Logo o notou sentado em um banco e caminhou em direção a ele, vendo a metrópole já plenamente acordada naquela manhã de sábado. Observá-lo assim, como quem faz algo escondido, já que ele não percebera que ela se aproximava, mexeu com os brios de Carol e ela sentiu um bolo no estômago se revirando, dando-lhe ânsia. Seu coração dizia para correr e se atirar nos braços dele. Sua mente dizia exatamente o contrário. Sempre que pensava em seu amor por Jun, ela forçava a si mesma a focar no seu objetivo naquele encontro: esclarecer e terminar tudo antes de voltar para o Brasil.
Ele estava lindo, como sempre. Contudo, algo em sua postura no banco, com as pernas esticadas, cabeça pendida e braços cruzados, a fez pensar que ele estava cansado. Desejou que ele pudesse pousar a cabeça em seu colo e dormir, enquanto ela lhe fazia cafuné.
Caroline precisou desviar os olhos para conseguir manter-se firme em seu intuito. Quando ela já estava bem perto, ele levantou os olhos e olhou em sua direção.
- Ah! – ele disse, e ela não conseguiu perceber qualquer emoção que ele estivesse sentindo – Você já está aqui, Karoru-chan?
- Uhm. Ohayo gozaimasu – curvando a cabeça. – Gomen por antes ter batido a porta na sua cara.
- Já foi, não importa mais. – disse, colocando-se em pé e a cumprimentando também - Ohayo. É, você demorou menos que dez minutos.
Carol sentou-se na outra ponta do banco e Jun voltou para seu lugar. Ambos estavam meio sem jeito, sem saber o que dizer ou como agir. Caroline foi quem tomou a iniciativa. Ela pôs a mão no bolso do casaco e tirou de lá a corrente com o coração.
- Toma – e estendeu a mão que segurava o colar – Isto fica com você.
- Nande?! – ele arregalou os olhos ao ver o que ela trazia na mão e quase gritou. – O que significa isso?
- Isso... – ela não sabia quais as palavras certas para usar – Isso... É pra você poder... uhm... é pra você dar para... droga, faça o que quiser com isso.
- Demo... – Jun se sentia perdido; ele não esperava por aquilo – Isso é seu, né? Seu coração... e eu tenho a chave... Por que está me dando isso?
- Eu não posso mais ficar com ele.
- Karoru-chan, eu preciso que você me explique o que está acontecendo. 
Ela ficou em silêncio, pensado no que responderia. Sabia, desde que respondera a mensagem, que uma hora ou outra Jun faria essa pergunta e ela precisava saber o que e como dizer. Pensou nisso por algum tempo. Por fim, coçou a garganta e abriu a boca para falar:
- Ano... Matsumoto Jun... eu... eu aceitei vir aqui te encontrar porque... quero me despedir.
- Nani? – ele, definitivamente, não conseguia entender.
- Isso mesmo. Não voltaremos a nos ver, nem escreverei mais cartas.
- Demo... – O que eu digo? Caramba, Karoru-chan, por que isso de repente? Como assim? – err... o casamento – Claro, claro! Ela virá ao casamento de sua melhor amiga, né? – Você vem, não é?
- Não.
- Demo... demo... nande? O que é isto que você tá fazendo?
- Jun... Matsumoto Jun... acredite em mim, é o melhor a ser feito.
- Hã??!! Só me explica direito que eu não entendi. ONDE ISSO É MELHOR??
Agora ele gritou. Estava começando a perder a paciência. Droga! Ao conversar com o Riida, tinha a firme convicção de que não desistiria, mas aquilo já tava passando dos limites. Meu Deus, custava Caroline ser um pouco, só um pouco, mais direta? Ele já dissera que a amava, que queria ficar com ela, que...
De repente, os olhos dela se encheram de lágrimas e Carol os fechou, baixando a cabeça para que ele não percebesse o tamanho de sua tristeza.
- Você... pode não... entender agora – falou baixinho – mas logo entenderá, então você vai me esquecer e voltar para a Yui.
- Eu não quero voltar para a Yui!!!
Vê-la chorando fez seu coração apertar mais ainda e ele sentiu que seus olhos também umedeciam. Jun tocou a mão dela que estava caída sobre o colo, ainda segurando firmemente a corrente que ele não pegara.
Enquanto ele segurava aquela mão (por algum motivo, ele pensou que ela se afastaria dele), uma lágrima quente de Caroline caiu sobre seus dedos e Jun não conseguiu mais conter as suas próprias.
Depois de alguns minutos chorando juntos, Carol tirou a mão debaixo da dele e levantou-se, largando a corrente com o pingente no lugar em que estivera sentada.
- Sayounara... Jun... – e se afastou lentamente.
Ele imediatamente ficou em pé e foi atrás dela, segurando-lhe pelo cotovelo.
- Karoru-chan... fique.
- Por favor, me solte.
Jun sentiu as pernas bambas. Tentou continuar indo atrás dela, mas era como se estivesse preso ao chão.
- Karoru! – deu seu último grito.
Já virando a esquina para entrar na rua do hotel, Carol olhou para ele e balançou negativamente a cabeça.

***

Durante o dia, Caroline pôs-se a arrumar a mala para a viagem de volta. Débora, depois de saber o que ela fizera com Jun e como se despedira, não quis conversa. Suas palavras ainda retumbavam na mente de Carol.

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Pequeno Flashback [9]

Ao voltar para o hotel, Carol subiu direto para o quarto. Estava arrasada e não queria ter que encarar ou falar com ninguém. Resolveu começar a organizar as coisas, separar as roupas, os sapatos, todos os presentes e lembranças que levaria para o Brasil.
Depois de meia hora, Débora apareceu.
- Carol, você já chegou! Podia ter me chamado e eu teria subido. Como foi?
 Com uma pilha de roupas no colo, respondeu:
- Eu terminei tudo com ele. É como se nada tivesse acontecido entre nós.
- Ahhh, tá!! Hahaha – Débora riu ironicamente – Nada aconteceu, hein? Por que isso?
Carol continuou dobrando as roupas e tentou ignorar toda a ferocidade contida nas falas da outra. Não porque que não se importava, mas porque tudo o que Dé disse era verdade, e saber disso a machucava ainda mais. Por fim, disse:
- É o certo, afinal. Até mesmo dei a ele meu colar, o coração, para não ter em mim nada que o ligue a ele, e para que ele possa reatar com Yui e dar a ela, se quiser.
Depois de quase dez minutos de silêncio, como se Débora estivesse digerindo a informação, ela falou novamente:
- Não acredito que você fez isso! Não estou te reconhecendo, Carol. Primeiro você diz com a maior cara lavada que não vem ao meu casamento por causa do Matsujun, embora ainda esses dias você tenha dito que seria minha madrinha. Ok, embora eu tenha ficado chateada na hora, não consigo ficar brava com você por muito tempo. Mas agora você chega e diz que fez uma coisa absurda dessas com ele? Você agiu como uma idiota! Ah, preciso respirar um pouco. Vou sair!
- Sair? Aonde você vai?
- Não sei. Vou dar uma volta, estou um pouco irritada. Bom, de qualquer forma, eu ficarei no hotel até amanhã, depois vou para o apartamento de Kazu até o casamento. Preciso organizar tudo para poder fixar residência aqui no Japão.
- Uhm.
Débora somente a encarou por alguns segundos e saiu sem dizer outra palavra, batendo a porta. Quando a amiga saiu, Carol deu um longo suspiro e continuou a arrumar suas coisas para a viagem de volta. Quando pegou os goods do show para guardar, veio-lhe a lembrança da manhã do sábado anterior, quando fizera já uma vez tudo aquilo.
Olhando por uns segundos para a uchiwa do Jun antes de guardá-la na bolsa da tour para pôr na mala, pensou nele aquela manhã e relembrou mais uma vez as lágrimas que ele derramara.
Será que ele pegou a corrente de coração no banco?, pensou, ao levar inconscientemente a mão ao peito, onde por tantos anos repousara o pingente.
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Lembrando-se disso, uma voz em seu subconsciente concordava com Dé e dizia que, se ela deixasse de ser idiota, poderia ser mais que uma fã. Sim, poderia assumir o risco e declarar para o mundo que amava o famoso ícone pop asiático. Se fizesse isso, não sofreria mais como estava sofrendo. Nem sentiria aquelas pontadas de dor em seu peito. Nem faria sua melhor amiga ficar infeliz por sua causa. Poderia ligar para Jun e resolver tudo antes de pegar o avião.
Se ela mudasse de ideia e resolvesse ficar com ele, mesmo voltando para o Brasil para terminar a faculdade, poderia voltar ao Nihon dali a alguns meses para o casamento. Não precisaria ter desistido de ser madrinha. Ninomiya ficaria triste também, quando soubesse que ela não estaria mais presente.
Mas, como dissera o sábio poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, a dor é algo que não se pode evitar, mas o sofrimento é opcional. E Caroline optara por sofrer voluntariamente e, mesmo causando alguma dor em Débora, Nino ou mesmo Jun, sabia que era passageira. Para Dé, ela sabia que sua ausência no casamento desta e de Kazu seria facilmente suplantada pela felicidade completa quando enfim chegasse o grande dia. E Jun... nele a dor talvez durasse mais, mas ela sabia que essa dor também passaria com o tempo. O tempo era o remédio para todos os males.
Preferia causar uma tristeza temporária, mesmo tendo que renunciar um pouquinho à própria felicidade.
Contudo, aquilo tudo machucava demais e ela não conseguia ter ânimo para nada. Só queria que a hora de ir para o aeroporto chegasse logo, ela pudesse entrar no avião, levantar voo e esquecer. Embora duvidasse que conseguiria se esquecer tão facilmente de um amor como o que sentia pelo Matsumoto Jun e transformá-lo novamente em simples amor de fã.
Pensava em tudo isso enquanto dobrava cuidadosamente peça por peça de roupa e guardava na mala, com algumas lágrimas correndo por seu rosto. Se para as pessoas que amava, a dor era passageira, para ela, aquele sofrimento ia durar para sempre, ou ao menos por muito tempo. 

***

Matsumoto Jun ficou ainda algum tempo sentado no banco da praça, até dar seu horário de ir trabalhar. Quando o relógio marcou 8h40, ele se levantou, pegou a corrente que Caroline deixara pra trás, guardando-a no bolso, e entrou no carro. A chave ainda estava em seu pescoço, escondida sob a blusa.
Ao chegar no estúdio, ainda faltava um minuto para às 9h, então não estava atrasado. Encontrou Satoshi no corredor e este notou instanaeneamente o pesar em sua face.
- Oi Matsujun. Chegou no horário, não precisei te cobrir. Mas você está com a cara tão abatida, o que aconteceu?
- Depois das fotos, e de gravarmos o CM, eu te explico tudinho, Riida.
Os minutos passaram lentamente. A sessão durou vinte minutos, e das 9h30 às 12h30, ele e Ohno gravariam. Ter que forçar o sorriso para sair bem nas fotos e tentar ser espontâneo na gravação foram as coisas mais difíceis para Jun naquela hora. Ele só queria acabar com aquilo de uma vez! E depois, ainda tinha a reunião e compromisso em cima de compromisso.
Mas, embora o tempo tenha se arrastado, finalmente ele e Ohno saíram para almoçar. Então ele pôde contar tudo que acontecera naquela manhã para o amigo. Este, que antes tivera muitos conselhos para dar, agora preferiu calar e simplesmente ouvir.
Depois de comerem, seguiram para a JE.

***

- O que tá pegando? Riida, Jun-chan? Vocês estão sérios...
Sakurai Sho entrou no camarim e deixou-se cair no sofá. Olhou de um para outro. Ohno, num puff, pressionava uma bolinha de borracha entre as mãos e olhava com cara de preocupação para o mais novo, que encarava fixamente os pés, sentado em uma cadeira.
- Problemas, minna? – Sho perguntou.
- Uhm. É o Matsujun. Ele finalmente terminou direito com a Yui.
- Hontou ni? Isso é motivo de felicidade, né? Você tá namorando oficialmente a Karorine-san agora, né Matsujun?
Este somente negou com a cabeça, mas não respondeu.
- Ah, nande? – Sho quis saber.
Aiba e Nino apareceram juntos na porta nesse instante.
- Sobre o que vocês estão falando? – Nino perguntou, se jogando ao lado de Sho no sofá, com um sorriso no rosto.
Aiba foi postar-se em pé ao lado do Riida.
- Antes Kazu... – Ohno olhou para ele e sorriu – Você almoçou com a Débora-san, não foi?
- Como você adivinhou? – todos os quatro olharam para ele com cara de “é óbvio!”
- Eu sabia! Hahaha – Ohno riu, mas logo ficou sério novamente. Sua tentativa de descontração mesmo só serviu para Nino.
- Mas então, do que falavam? – Nino repetiu a pergunta.
- Isso mesmo. Nani, nani? – Aiba entrou na conversa.
Jun, que levantara os olhos quando os meninos chegaram, novamente olhou para os pés, tristemente.
- É a Karoru-chan, minna. Ela... terminou tudo comigo – disse.
- Então é verdade, Jun-pon?
- Como então é verdade, Nino?
- Eu fui almoçar com a Deb, né... ela me contou. A Karoru não virá ao casamento e parece que te largou de vez, é isso mesmo? Além disso, eu estava no hotel ontem quando ela não quis atender sua ligação, Jun-pon. Aliás, sabe que música ela colocou no toque? One Love.
Ao ouvir isso, Jun olhou rapidamente para cima e deu um meio sorriso. A primeira vez que de fato sentiu que balançou nos alicerces pela burajirujin foi quando o Arashi cantou essa música no show e ele viu pela primeira vez as lágrimas de Carol; lágrimas de felicidade.
Mas logo ele baixou novamente a cabeça. Nino continuou:
- Eu até falei pra ela atender, mas ela disse “Não quero”, e colocou no vibratório, embaixo do travesseiro. Mas conta pra gente, o que realmente aconteceu?
Jun, que se perdera em pensamentos lembrando daquele show, não respondeu. Sho levantou-se, caminhou até ele e deu-lhe um tapinha na cabeça.
- Jun-chan, o Nino ta falando com você!
- Itai! – pondo a mão onde levara o tapa, com os olhos semicerrados – Gomen, eu me distraí.
- Sei... – revirando os olhos, ele voltou a sentar.
- Conta pra gente, Jun-chan, o que houve? – Aiba disse.
Com um longo suspiro, ele respondeu:
- É isso mesmo, minna. Ela me deixou e, pelo que me disse, não vem mesmo ao casamento do Nino. Eu não entendo por quê. Fui ao hotel hoje, mas ela nem sequer me recebeu, nem abriu a porta.  Embora depois ela tenha ido me encontrar na pracinha ali perto, foi somente para se despedir.
Ficaram em silêncio por um momento. Jun tirou o pingente de coração do bolso.
- Nani kore?! – Sho arregalou os olhos quando viu a corrente. – O coração da Karorine-san?
- Hai. – Jun guardou novamente no bolso – Ela me deu isso aqui quando se despediu.
- Hontou? – Aiba se pronunciou. – Não fica triste, Matsujun – dando um sorriso radiante e pousando a mão nas costas curvadas do amigo – Tenho certeza que as coisas vão se ajeitar.
- Aiba-chan, você é sempre otimista – Sho comentou, sorrindo – Mas é verdade, Matsujun.
- Ah, não sei! – Jun olhou para o teto, com as mãos na cabeça, demonstrando um pouco de irritação na voz. – O que justifica isso? Ela me dispensou por nada! Fique lá no hotel, esperando, até que não pude mais esperar, tamanha a minha angústia, e resolvi descer para a praça e tentar minha última tacada, que era ligar para a Débora-san. Daí, ela vai me encontrar para se despedir?! Quem ela pensa que eu sou?!
Jun estava tentando manter a pose e fazer-se de bravo, mas seu verdeiro humor venceu e ele deixou cair os braços ao redor do corpo, rendido.
- O que é isso, Jun-pon? Você não é assim, cara!
- O Kazu-chan tá certo – Ohno concodou – O que é essa cara de quem tá se entregando? Lute por quem você ama! Faça alguma coisa, a impeça de partir assim!
A sala ficou em silêncio por alguns minutos. Ficaram, todos os cinco, sentindo o peso das últimas palavras ditas.
Jun não se entregava facilmente, em nada na vida. Desde a infância era assim, não era? Terminara o namoro por um amor inesperado e totalmente real e verdadeiro que encheu seu coração, sua mente, sua alma. Por esse amor, desistiu da mulher com quem ficou por mais de um ano, por esse amor estava disposto a enfrentar a imprensa, os fãs, até mesmo Johnny Kitagawa se fosse preciso. Em nome desse amor, não podia simplesmente entregar os pontos. Finalmente, ele levantou-se, e com a voz firme, disse:
- Yosh! Eu vou lutar! - mas no fundo temia as próprias palavras, e achava que não poderia de fato fazer alguma coisa.
Um staff apareceu na porta para chamá-los para a reunião. Estavam cinco minutos atrasados. Quando saiam todos da sala e seguiam pelo corredor, Aiba se aproximou de Jun e sussurrou em seu ouvido:
- É hoje que ela vai embora, né? Você vai ao aeroporto, não vai?
- Eu não sei – ele sussurrou de volta.
Continuaram caminhando até chegarem à sala de reuniões, onde Watanabe-san, os demais empresários e diretores que cuidavam dos concertos estavam já reunidos.
Jun não tinha o costume de trazer seus problemas pessoais para o trabalho e modificou seu semblante, antes triste e abatido, assim que entrou na sala. Mas os outros quatro, que o conheciam tão bem, sabiam que no fundo de seus olhos, a máscara de seriedade e disciplina não conseguia ocultar a dor que sentia.

***

Ryuchi tentou durante todo o dia, só não quando ela estava trabalhando, convencer Yui a ir embora com ele. Ela negou todas as vezes.
- Não – ela dizia – Eu não posso Ryu. Tenho uma vida aqui, meu trabalho, minha casa, não posso largar tudo só porque um namorinho acabou.
- Demo...
- Não Ryu – ela se achegou a ele e o abraçou carinhosamente. – Não vamos mais falar sobre isso, ok?
- Uhm... hai... eu acho. – envolvendo-a com os braços.
Finalmente, pela manhã ela aceitara ser consolada. Saíra do quarto para fazer o desjejum de banho tomado, maquiada, belamente vestida e totalmente recuperada, mas ele notou no fundo de seus olhos uma tristeza real. Foi só ele abrir os braços que Yui se atirou em seu peito e começou a soluçar. Sem poder fazer mais, Ryuchi somente acarinhou seus cabelos e cantarolou uma canção infantil.
Depois de quinze ou vinte minutos assim, Yui parou de chorar. Manchara toda a camiseta do amigo de maquiagem preta.
- Gomen ne, Ryu.
- Iie.
- Eu vou lavar o rosto e me arrumar novamente, que já to atrasada.
- E... o café que preparei?
- Eu não posso, estou quase dez minutos atrasada, e com o trânsito, será mais de meia hora quando finalmente chegar à revista.
- Demo... eu preparei com tanto carinho... – fazendo biquinho.
Ela pensou por alguns segundos, olhou para a mesa preparada e não resistiu. Sorrindo, respondeu:
- Tá bom então. Eu já to atrasada mesmo – dando de ombros – Vou só me arrumar e já venho.
O almoço dela também foi Ryuchi quem preparou. Durante a refeição, ela casualmente comentou que tinha que devolver a chave do apartamento de Matsumoto Jun. Quando disse o nome dele, uma pontada de dor apareceu em seus olhos, reflexo do que ia em seu coração.
- Daijoubu, Yui? – Ryu perguntou, preocupado. 
- Hai.
- Certeza?
- Ryu – colocando sua mão sobre a dele, que repousava sobre a mesa, e pressionando-a levemente. – Não precisa se preocupar, está bem? Foi só um namoro que acabou. Eu já passei por isso antes e sobrevivi. – e sorriu.
- Então, tudo bem – sorrindo também – Vamos continuar comendo.
À tarde, enquanto ela estava no trabalho, ele ficou sozinho no apartamento novamente. Aproveitou para pôr em ordem os pensamentos. Amava Yui e queria somente seu bem, mas não queria forçá-la a nada, nem ela queria sair da metrópole. Contudo, Ryu tinha que voltar para Chiba no domingo, pois na segunda-feira era ele quem precisava trabalhar.

***

Quando Débora entrou novamente no quarto do hotel, Caroline a esperava sentada na cama, já trocada, com a mala feita e pronta para descer e esperar o táxi que iria pegá-la às 3h. Já eram quase 2h da tarde e ela almoçara sozinha no restaurante do hotel.
- Aonde você foi, Dé?
- Lugar nenhum...
- Aonde?
Ela caminhou até a cama de Carol e se sentou ao lado da miga, colocando o braço em voltas de seus ombros.
- Fui almoçar com o Kazu. Desculpa-me por eu ter saído daquele jeito. Não sei porque fiquei tão irritada. Acho que foram muitos acontecimentos e muita informação num dia só. Acabei perdendo as últimas horas suas em Tóquio.
- Não tem importância. Eu mereci ficar sozinha. Magoei todo mundo. Você tem razão por estar brava.
- Não estou brava, Carol. Fiquei chateada sim, quando você falou que não vem ao casamento, e, digamos, indignada quando você decidiu terminar tudo com o Matsujun. Ainda acho uma decisão equivocada, mas ela foi tomada por você e não há nada que eu possa fazer. O que podia, eu já fiz. Mas, independente disso tudo, você ainda é e sempre será a minha amiga mais amada! – Dé falou a última frase com um grande sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos. – Vou sentir muito a sua falta!
As duas se abraçaram e ficaram assim por um bom tempo, chorando juntas. Sim, elas eram melhores amigas para a vida toda, não importa o tamanho do Oceano que se interpusesse entre elas.

***

O voo de Caroline era às 5h daquele 1° de novembro de 2014. Ela já fizera o check-in pela internet do celular e descera para o hall às 2h45. Débora ficara no quarto. Ela disse que não queria se despedir novamente no aeroporto, seria muito triste.
Dos meninos do Arashi, foi Sakurai quem ligou para despedir-se de Carol e todos falaram com ela, menos Jun. Cada um se desculpou por não poder ir ao aeroporto, devido aos muitos compromissos, e desejaram a ela uma boa viagem.
Sakurai Sho disse:
- Tem certeza do que está fazendo, Karoru-chan? Não vai se arrepender depois?
Ela respondeu que tinha certeza sim, mas não sabia se iria se arrepender ou não. Se o arrependimento chegasse, ela teria que saber lidar com ele.
- Karorine-san – disse Aiba Masaki, quando ele pegou o celular – O Jun-chan está muito triste, eu sei que você também está. Não faça isso, onegai.
Novamente, ela afirmou que estava fazendo o que achava ser o melhor.
- Nós vamos sentir sua falta, Karorine. – disse Ohno Satoshi – Tem certeza de que não voltará? É uma pena.
Ela não aguentava mais sempre repetir as mesmas palavras. Aquilo só estava fazendo as coisas piorarem.
- Sabe Karoru, não é só o Jun-pon que está triste – Kazu falou, na sua vez – Eu também estou. Realmente queria que você viesse para o casamento. A Deb gosta tanto de você...
- Essa tristeza vai passar rápido, você vai ver Kazu-chan! – ela tentou parecer animada, mas o resultado não foi muito bom. – Logo chega o grande dia e vocês até já terão se esquecido da minha ausência.
Caroline estava aliviada por ao menos um deles não questioná-la e ela não ter que repetir a mesma justificativa que para ela agora parecia algo tão banal.
- Não fale assim, Karoru. Você sabe que isso não é verdade. Bom, já que você está voltando hoje, terá tempo pra refletir melhor né? Quem sabe você mude de ideia? Jya ne. Em janeiro, vou estar te esperando!
- Vocês já decidiram quando vai ser?
Ela não queria demonstrar interesse, e Débora nem tocara naquele assunto. Desde a discussão que tivera com a amiga no dia anterior, ambas evitavam falar de assuntos sérios, para não tocarem nas feridas abertas de uma e de outra.
Contudo, quando Nino falou sobre janeiro e sobre estar esperando, Carol não pôde evitar sentir certa ansiedade. No fundo, ela queria muito estar presente no enlace matrimonial, mas não podia dar o braço a torcer. Além disso, sentia que cada segundo que passava no Nihon ficava mais inclinada a desistir de sua decisão e correr para os braços de Jun. Mas não podia fazer isso. Era uma mulher obstinada e costumava se manter firme nas decisões que tomava, a menos que alguém lhe provasse o contrário. Podia ser idiota, burra e cabeça dura, e podia ser indecisa também, mas depois que a decisão estava tomada, ela não tinha o hábito de voltar atrás por qualquer motivo.
Então, quando Nino, que já desligava o aparelho, voltou a falar “Você disse alguma coisa?”, ela simplesmente negou.
O táxi chegou pontualmente às 3h, e Carol já estava sentada no banco de trás, esperando somente o motorista fechar o porta-malas do carro para partirem, quando alguém bateu no vidro.
- Carol! – era Débora – Eu vou junto! – e completou, enquanto abria a porta e se sentava ao lado da amiga – Vou junto até o aeroporto, claro.
- Obrigada – Caroline sussurrou.
- Não agradeça. Eu que não resisti e simplesmente não pude deixar você sair assim, sem ninguém pra se despedir antes de embarcar, né? Somos amigas há anos, e mesmo que você não venha ao meu casamento, com certeza eu irei logo, logo fazer uma visita para você, meus pais e todo mundo no Brasil.
O taxista entrou no carro. Dé segurou a mão de Carol e ordenou:
- Aeroporto Internacional de Narita, onegai shimasu.
- Hai!

***

Matsumoto Jun saiu apressado, às 4h40 da tarde, assim que a reunião finalmente terminara. Realmente, aquele reunião batera o recorde da demora e ele já estava se irritando, tamanha a ansiedade que sentia.
Ele sabia que o voo de Carol era às 5h e torcia para conseguir chegar ao aeroporto a tempo. Queria ao menos vê-la mais uma vez antes que ela se fosse, e intimamente tinha uma vaga esperança de que ao vê-lo, ela mudasse de ideia e resolvesse voltar.
Jun costurou todos os veículos nas avenidas, usou todas as ruas alternativas para evitar os semáforos, e mesmo assim o relógio corria rápido em direção às 5h. O que ele podia fazer era desejar que o voo tivesse se atrasado. Enquanto isso, continuava dirigindo. Mas não conseguiu evitar o trânsito completamente.
Chegou em frente ao aeroporto quando o relógio do painel do carro marcava pontualmente 5h. Estacionou numa vaga destinada a embarque e desembarque rápido de passageiros e quando um guarda olhou para ele com cara de poucos amigos, sabendo que ele não tinha jeito de quem ia viajar, Jun somente o encarou de volta com um super olhar DoS, irritado demais e com muita pressa para dar atenção ao que o homem de uniforme dizia.
Esquecera mais uma vez os disfarces, então não conseguiu evitar ser reconhecido por várias pessoas na multidão que entrava e saía do aeroporto. Muitas mulheres, moças, rapazes, homens, crianças e velhos vieram falar com ele. Normalmente Jun era atencioso com os fãs, mas naquele dia não tinha tempo para isso. Então somente forçou um sorriso simpático e continuou avançando.
- O senhor não pode entrar na sala de embarque sem ticket de partida – o segurança ao lado do corredor que levava ao embarque internacional pôs a mão em seu peito quando ele chegou quase correndo. – Mostre-me sua passagem.
- Eu não tenho uma – Jun respondeu, e continuou tentando passar.
- Então não pode entrar.
- Mas eu preciso encontrar alguém! Urgente!!
- Sinto muito senhor.
- Ei, você sabe com quem está falando? Sou Matsumoto Jun!! – disse, irritado, em tom de ameaça.
- Não me interessa. Eu só cumpro leis e aqui sou a autoridade máxima! Mesmo se o senhor fosse o primeiro ministro, eu não poderia deixá-lo entrar aqui sem ticket.
- Demo...
- Não é não. Não insista mais, senhor. – o segurança foi muito firme e só quando Jun parou de tentar forçar a passagem, ele tirou a mão de seu peito.
Jun saiu de frente do portão e procurou com os olhos um painel eletrônico com os horários de voos. Encontrou, depois de alguns segundos, o voo 1437 com destino a São Paulo, Brasil, com conexão em Munique, Alemanha. Era o de Caroline. Ele ainda não partira, apesar de que era indicado no painel que ele já estava pronto para embarque.
Se eu correr, talvez dê tempo, pensou, ao avançar sem titubear, passando pelo segurança, correndo até a sala de embarque. Causou um pequeno alvoroço atrás de si, mas não se importou.
Correu mais veloz que os seguranças e, ao chegar à sala cheia de passageiros, ajeitou o cabelo com as mãos, respirou fundo duas vezes e, tentando se parecer ele também com um viajante, caminhou tranquilamente até o balcão de informações.
- Sumimasen – abordou uma funcionária do aeroporto.
- Em que posso ajudá-lo, senhor? – ela abriu o maior dos sorrisos, e ficou evidente que o reconheceu.
Ela percebeu também que ele não estava de viagem, e assim que ele se aproximou, recebera o aviso de que uma pessoa não-autorizada invadira a área de embarque. Mas, como se tratava de Matsumoto Jun, do Arashi, de quem era muito fã, não disse nada, nem alertou a segurança, colocando, com isso, o próprio emprego em perigo.
- O voo 1437...
- Senhor, ele acabou de erguer-se do chão.
O semblante de Jun mudou instantaneamente. Ele não conseguiu responder.
- O senhor precisa de mais alguma ajuda, Matsumoto-san?
Sim, eu exijo que alguém faça aquele avião descer!, pensou, mas simplesmente balançou a cabeça, desanimado, e afastou-se. 

Um comentário:

Anônimo disse...

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